AÇÕES SINDICAIS

Jovem auxiliar de limpeza luta contra o preconceito e a “invisibilidade pública” da categoria

25/06/2020

Luany Raquel de Sales, 24 anos, começou a trabalhar aos 19, como auxiliar de limpeza. Iniciou limpando trens da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) e atualmente exerce a mesma função nas estações da empresa, por intermédio de uma empresa terceirizada. Ela completou o ensino médio e decidiu não ingressar na faculdade. Conta que pretende “um dia monta uma loja ou trabalhar com fotografias”, que é o seu sonho. Mora próximo à estação Dom Bosco, em Itaquera, Zona Leste, onde trabalha há 4 anos e sete meses. Segundo ela, é com esse trabalho que sustenta a casa e alimenta a filha, Maria Hellena, de dois anos. 

No dia 20 de junho Luany fez um post no Facebook e Instagram enaltecendo a profissão e se dizendo orgulhosa por trabalhar no setor de limpeza.

Foto: Reprodução Facebook/Arquivo Pessoal

Moacyr Pereira, presidente do SIEMACO São Paulo, sindicato que representa a categoria na capital, enaltece a importância da valorização profissional, mas também o reconhecimento desses trabalhadores fora do expediente. "Fazemos muitos trabalhos de visibilidade, sempre enfatizando a importância do ser humano. Até concursos de beleza já promovemos. Mas também palestras, cursos e trabalhos que mostrem esses trabalhadores e trabalhadoras que tem um impoirtante papel na nossa sociedade", enfatiza.

Segundo Luany, a postagem foi feita de maneira despretensiosa, mas atingiu o objetivo. “Espero que as pessoas entendam e respeitem as profissionais da limpeza. A gente está ali para fazer o nosso melhor. Recebemos muitos julgamentos e olhares maldosos. Há bastante preconceito. Às vezes ficamos com a impressão de que as pessoas têm nojo da gente. Mas pra mim não é uma vergonha: qualquer um pode estar sujeito a ter que fazer um trabalho assim”, disse.

A rotina diária é dura, porém compensadora. “O expediente é cansativo, exaustivo. Trabalho numa escala de 5 x 1. A minha rotina é ir de casa para o trabalho e vice e versa. Já sofri muito bullying. Comecei muito nova. Mas me sinto bem, é daqui que tiro o meu sustento”, complementa.

Quanto aos planos para o futuro, Luany é bastante sincera. “Todo mundo que trabalha na limpeza sonha em sair um dia. Eu trabalho de cabeça erguida e tenho muito orgulho do que faço. Eu não preciso desdenhar de ninguém. Sei o quanto é duro ganhar vida na limpeza”, relata.

Consciente do seu papel na sociedade, Luany enaltece a amizade no ambiente de trabalho. “A parte boa é a troca de experiências com pessoas mais velhas, mais vividas, gente do bem, que dá bons conselhos. Elas sabem lhe dar com situações difíceis”.

E também pontua as adversidades. “A parte ruim é o olhar dos outros, o julgamento. Tem gente que não toca na gente, não abraça, não cumprimenta direito... Muitas pessoas têm um ar de superioridade, mas ninguém é melhor do que ninguém. A humilhação e muito grande. Eu sou nova, mas mesmo assim sinto na pele o julgamento, o enojamento das pessoas, que julgam, condena, falam mal.... Trabalhar na área me ensinou muito o que é ter respeito pelas pessoas. Estou sempre disposta a aprender. Não é fácil sentir que a pessoa não se aproxima, não te toca, tem nojo de você. Essa é a parte pior”,

Por fim, revela a inspiração para publicar o post nas redes sociais. “Me inspirei numa colega de trabalho e resolvi fazer o mesmo, para enaltecer as meninas e mostrar que somos gente como qualquer um. O funcionário da limpeza não é um pobre coitado, não é sujo e nem ruim. Isso tem dignidade... A gente tem de agarrar as oportunidades, tem de ser forte a todo o momento. Ela (a colega de trabalho) também é uma mãe, que cria o filho e me despertou a dignificar a nossa profissão. Quem nos vê fora do trabalho não faz ideia do que passamos, mas sou uma funcionária da limpeza sim e tenho orgulho disso. Sou uma trabalhadora, como qualquer outra”, finaliza.

 

  

Luany no ambiente de trabalho e com a filha, Maria Hellena – Fotos: Arquivo Pessoal

 

“invisibilidade pública”

 

Uma tese de mestrado defendida em 2002 na Universidade de São Paulo (USP) aponta como as diferenças sociais criam "seres invisíveis", em que a percepção do outro fica condicionada às funções e não às pessoas.

De acordo com a Agência USP de Notícias, a pesquisa Garis – um estudo de psicologia sobre invisibilidade pública – buscou contribuir para a determinação desse (à época) novo conceito: a invisibilidade pública, em que “a percepção humana é prejudicada e condicionada à divisão social do trabalho, ou seja, enxerga-se somente a função e não a pessoa”.

Para o psicólogo Fernando Braga da Costa, que defendeu seu mestrado no Instituto de Psicologia (IP) da USP em novembro de 2002, basta "um simples 'bom dia' e a pessoa pode sentir que novamente existe".

Na reportagem Braga ressalta que não se trata de um aspecto biológico da visão e sim de uma prática oriunda de um "fosso" entre as pessoas, resultante das diferenças sociais nas diversas classes existentes. "A invisibilidade pública opera em dois planos: consciente e inconsciente. Quanto mais próximo se está desse sujeito 'invisível', mais consciência dela se tem." O resultado, segundo o pesquisador, é que pessoas passam a ser entendidas como coisas, chegando a ser imperceptíveis.

Em 1996, durante cinco anos Braga trabalhou como gari, no mínimo meio período, de um a três dias por semana, no próprio Campus da Cidade Universitária. Ele cursava o segundo ano da faculdade e tinha uma disciplina “voltada ao propósito de psicólogos desenvolverem estudos engajando-se na atividade escolhida”. Esse método é conhecido como Etnográfico.

Estudo pioneiro

Ainda segundo a reportagem da Agência USP, a pesquisa se desenvolveu em dois níveis. “Primeiro conhecer e avaliar as condições de trabalho dos garis, bem como as condições morais e psicológicas nas quais estão inseridos na cena pública. E segundo analisar as aberturas e barreiras psicossociais que operam nos encontros entre o psicólogo social e os garis, ou seja, se havia aproximação e de que forma.”

Para o estudioso, a distinção de classe social determina a ação social. “É um fenômeno de mão dupla, mas de origens diferentes. Um exemplo: enquanto pessoas da classe média não cumprimentam o gari por entenderem que não se trata de uma pessoa e sim de uma função, ele (o gari) tenta se proteger da violência da invisibilidade não respondendo a um eventual cumprimento”.

O pesquisador também destaca na reportagem que uma das saídas a esta situação seria, num primeiro momento, ter consciência sobre a invisibilidade pública. O segundo passo, ter um “olhar” mais atento àqueles que estão a nossa volta. "O uniforme simboliza a invisibilidade; temos de mudar isso, pois também se trata de uma violência", finaliza

 

*Com informações de reportagem de Marcelo Gutierres, da Agência USP de Notícias

 

Categorizado em: Ações Sindicais,