Janeiro Branco: psicóloga analisa escala 6×1 e seus impactos na saúde mental do trabalhador
O mês de janeiro é dedicado à campanha Janeiro Branco, voltada à conscientização sobre a saúde mental, tema que ganha força quando se considera o cenário do trabalho no Brasil. A síndrome de Burnout, reconhecida como fenômeno ocupacional pela Organização Mundial da Saúde (OMS) na Classificação Internacional de Doenças (CID‑11), tem prevalência significativa no país. Estimativas da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anamt) apontam que cerca de 30% dos trabalhadores brasileiros sofrem da síndrome, que se manifesta por exaustão física e mental decorrente de estresse crônico relacionado ao trabalho. O Brasil ocupa o segundo lugar no mundo em diagnósticos de Burnout, atrás apenas do Japão.
Esse contexto é ainda mais relevante quando se fala de jornadas extenuantes, como a escala 6×1, regida pelo sistema de seis dias de trabalho seguidos por um de descanso. Além da carga de trabalho, o deslocamento diário também impacta a saúde mental. Segundo estudo encomendado pela Rede Nossa São Paulo ao Ipsos, os paulistanos gastam em média duas horas e vinte e cinco minutos por dia no trajeto casa-trabalho, especialmente no transporte público. Somadas às jornadas extensas, essas horas consumidas no trânsito reduzem drasticamente o tempo para lazer, convívio familiar e autocuidado, aumentando o risco de estresse e esgotamento físico e mental.
Para discutir esses impactos e oferecer orientações aos trabalhadores, o SIEMACO São Paulo conversou com a psicóloga clínica Deborah Braunstein, que atende funcionários e diretores na subsede Santo Amaro.

Entrevista com Deborah Braunstein, psicóloga clínica do SIEMACO-SP
SIEMACO-SP: Débora, como a escala 6×1 interfere na saúde mental do trabalhador?
Deborah Braunstein: Quando a rotina é trabalhar seis dias consecutivos, muitas vezes com jornadas extensas, sobra pouco tempo para a vida fora do trabalho. Isso pode fazer com que o trabalho ocupe praticamente todo o nosso sentido existencial, deixando de lado lazer, família, hobbies e autocuidado — aspectos fundamentais para preservar nossa saúde mental.
SIEMACO-SP: Quais sinais emocionais e comportamentais são mais comuns nesse contexto?
Deborah Braunstein: Observamos com frequência estresse crônico, irritabilidade, insônia e perda de prazer no trabalho. Esses sinais estão associados à síndrome de Burnout, que se manifesta justamente em situações de excesso de trabalho, pressão e falta de tempo para recuperação física e emocional.
SIEMACO-SP: É possível proteger a saúde mental mesmo sem mudar a escala?
Deborah Braunstein: Sim. O fundamental é que a empresa ofereça condições mínimas para o trabalho: ambiente livre de assédio, estrutura adequada, equipamentos necessários e apoio psicológico. Um espaço onde o trabalhador seja reconhecido como pessoa com necessidades individuais contribui diretamente para o equilíbrio emocional, mesmo diante de uma rotina exigente.
SIEMACO-SP: E como o trabalhador pode se posicionar sobre suas necessidades?
Deborah Braunstein: É essencial que o trabalhador saiba que tem direito de expressar suas demandas — seja por questões de saúde, assuntos familiares ou fadiga emocional. Um ambiente que acolhe essas conversas sem julgamento fortalece relações de trabalho mais humanas e saudáveis.
SIEMACO-SP: Há diferenças entre gerações na forma como lidam com essa questão?
Deborah Braunstein: Sim. As gerações mais jovens tendem a questionar mais as condições de trabalho, buscando equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Os mais experientes sentem mais intensamente o impacto físico e emocional da escala 6×1. Em ambos os casos, perceber o sentido do trabalho e buscar um equilíbrio de vida é essencial para a saúde mental.
SIEMACO-SP: Que conselho você daria para os trabalhadores?
Deborah Braunstein: Reflitam sobre o papel do trabalho na vida de vocês e busquem equilíbrio. O trabalho deve contribuir para o bem-estar, não ser causa de desgaste. Ter espaço para lazer, família e autocuidado é fundamental para manter a saúde mental mesmo em escalas mais rígidas.
Por Fábio Lopes (MTb 81800/SP) – Fotos: Alexandre de Paulo