Documentário “Flores no Asfalto” aborda a Força, o Afeto e as Lutas das ‘Margaridas da Limpeza Urbana’ na cidade de São Paulo
Secretária Geral do SIEMACO-SP, Marcia Adão (à esq.) participa de documentário com abordagem humana e sensível, idealizado pelas estudantes de jornalismo da ECA-USP: Lívia Uchoa, Beatriz Garcia e Sofia Zizza, no qual garis e varredoras compartilham trajetórias de superação, preconceito e o orgulho de manter a cidade limpa. Foto: Alexandre de Paulo/SIEMACO-SP
Todos os dias, muito antes de o sol despontar sobre os arranha-céus e o tráfego caótico de São Paulo tomar conta das avenidas, centenas de mulheres vestem seus uniformes laranjas para encarar o asfalto. Conhecidas carinhosamente como “margaridas”, as trabalhadoras da limpeza urbana desempenham uma função vital para a saúde pública e a mobilidade da metrópole. Contudo, por trás da varredura diária das praças e do recolhimento de resíduos, ocultam-se trajetórias de sacrifício, preconceito social e um profundo orgulho de suas conquistas.
Essa realidade ganha luz e sensibilidade no documentário “Flores no Asfalto – Margaridas”, produzido pelas estudantes de jornalismo Beatriz Garcia, Miriã Gama, Sofia Zizza e Lívia Uchoa, do Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). O trabalho disponível no YouTube dá voz e humanidade às trabalhadoras do setor, expondo dilemas do cotidiano e a busca constante por dignidade.
Orgulho, vaidade e o autocuidado no asfalto
Um dos relatos centrais do filme é o de Sonia Regina dos Santos, de 47 anos. Natural de Santos e criada em Praia Grande, Sonia mudou-se para São Paulo há mais de uma década. Mãe solo de três filhos, ela relata como o trabalho na limpeza urbana, apesar de duro, foi o esteio que permitiu sustentar a família e garantir o tratamento de saúde do filho do meio quando pequeno.
“Eu acordo às 4 horas da manhã. Passo meu batonzinho, meu lápis no olho, dou uma ajeitada no rosto porque a gente tem que andar bonitinha”,
Conta Sonia
Para ela, manter a vaidade e o autocuidado é uma forma de resistência. Sonia, que varre ruas na Zona Leste e guarda o sonho de cursar faculdade de Serviço Social ou Fisioterapia, reforça que o trabalho na rua exige garra, mas não elimina a delicadeza de ser mulher.
Outra trajetória marcante é a de Quitéria Gomes Araújo, de 57 anos, imigrante alagoana que atua na logística e no setor de tráfego de caminhões de limpeza. Quitéria começou a catar papéis e recicláveis aos 7 anos para comprar material escolar, transformando a varrição em seu sonho de infância. Hoje, ela orienta equipes e libera frota de veículos.
“Sempre tive orgulho da minha farda. Ia para qualquer lugar de farda porque me sentia segura e honrada com o meu trabalho”,
relata Quitéria
Invisibilidade pública e a perspectiva do SIEMACO-SP
A invisibilidade social vivenciada por essas trabalhadoras é analisada no documentário com a contribuição do psicólogo social e professor Fernando Braga da Costa, autor de uma célebre tese de doutorado pela USP na qual trabalhou dez anos vestindo uniforme de gari para comprovar como a sociedade ignora e “apaga” o indivíduo por trás da farda.
Para aprofundar essa discussão sobre o impacto de gênero e a estrutura de trabalho, as estudantes entrevistaram Marcia Adão, diretora responsável pela Secretaria Geral do SIEMACO-SP.
Com mais de três décadas de trajetória na defesa da categoria, Marcia Adão destaca que as mulheres garis enfrentam jornadas duplas e triplas exaustivas:
“A maioria dessas trabalhadoras são mães solo, chefes de família que sustentam seus lares. Elas cumprem o trabalho pesado na rua e, ao chegar em casa, cuidam dos filhos, do lar e muitas vezes de familiares idosos ou doentes. É uma rotina brutal que exige um olhar diferenciado e acolhedor”,
destaca Marcia Adão
Marcia também enfatiza a importância da atuação do sindicato além das questões trabalhistas tradicionais. Por meio do conceito de “Sindicato Cidadão”, a instituição busca oferecer suporte integral — incluindo assistência médica, odontológica e colônias de férias — para uma categoria que historicamente se encontra na base da pirâmide socioeconômica.
Por Alexandre de Paulo (MTb 53.112/SP), texto e fotos
Ficha técnica e créditos do documentário
- Título: Flores no Asfalto – Margaridas
- Roteiro e produção: Beatriz Garcia, Miriã Gama e Sofia Zizza
- Identidade visual e vinheta: Miriã Gama
- Edição: Lívia Uchoa
- Entrevistados: Sonia Regina dos Santos, Quitéria Gomes Araújo, Marcia Adão (SIEMACO-SP) e Fernando Braga da Costa
- Instituição: Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE) — ECA-USP (2026)
- Clique abaixo e assista ao documentário na íntegra:
Abaixo imagens dos bastidores da gravação do depoimento da diretora Marcia Adão na sede do sindicato.
Fotos: Alexandre de Paulo/SIEMACO-SP







